José de Alencar, sobre a literatura:

"Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado".
Benção Paterna, 1872 - tem coisas que não mudam.




terça-feira, 2 de outubro de 2012

Pensando sobre Rolland Barthes: a morte do autor

O que Mallarmé, Proust, Brecht e Barthes tem em comum?

A escrita surrealista descendente da poética de Mallarmé contribuiu para dessacralizar a figura do autor, através da proposição da destruição do sentido, da revolução da lógica, da subversão da sintaxe ou ainda, e principalmente, da construção automática e/ou coletiva do texto.

Brecht,  também participa desse movimento de apagamento do autor, através do seu conceito de "gestus" e seu objetivo de deixar a sua escritura ter o seu significado necessariamente completado pelo ator/performer e pelo público.

Segundo Barthes, quando Proust, em "Em busca do tempo perdido", nos oferece uma narrativa `as avessas de um livro que ainda vai ser escrito, ele nos instiga a pensar que Charlus não é uma personagem inspirada em Montesquieu, e sim que Montesquieu é um fragmento secundário derivado de Charlus; que a vida imita a arte. Proust não faz a sua obra da sua vida, mas faz da própria vida uma obra.

Barthes em seu texto "A morte do autor", afirma que o autor não nos entrega a sua confidência num livro. Claro! Eu sinto que o autor escreve sobre seus monstros, mas, sem dúvida, pensar que o que está na página é apenas um recado pessoal do autor ou um fragmento da sua realidade, certamente diminui seu valor.

Eu já escrevi sobre princesas, homossexuais, heróis e loucos... acho que escrever só é possível para quem sente, mas sentir não é ter visto ou vivido.

Sem dúvida, a obra de Proust (como também a de Caio Fernando Abreu, por exemplo) é permeada de sua homossexualidade; a obra de Van Gogh é permeada de sua loucura; as obras de Borges e Guimarães são povoadas pelas pessoas e cenários da vida de seus autores; a obra de Kafka é contaminada pela figura paterna opressiva. Mas a literatura vai muito muito mais além.

Quando a gente resume um texto, tira dele a sua literatura, pois o literário some onde há pressa por entendimento. Quando nós analisamos um viés de compreensão de um texto parece que estamos tirando dele sua ambiguidade e literariedade. Mas para quem gosta de estudar uma obra literária são imperdoáveis o excesso de certezas, a falta de humildade e a falta de múltipla perspectiva.

Mas e o escritor/ autor? Como escritora, sempre fico dentro de mim, numa vã filosofia, buscando os tanques e as borboletas que movem a minha suposta literatura.


6 comentários:

Suzete disse...

Adorei seu texto e te ver na blogesfera! Bjos

Dany Gomes disse...

Nina,

o texto ficou muito bom!
beijo
dany

Nina Maniçoba disse...

O AUTOR NÃO QUER SER A "AUTORidade": Uma amiga falou que não concorda com a parte de "deixar a impressão do texto para o leitor" como sendo uma dessacralização do autor. Mas isso é o que diz Barthes. Claro que a ambiguidade é atributo eterno do literário, mas a noção de que o autor não quer ser o único "dono e guardião" do mistério do enredo ou da moral da história é que é o conceito que Barthes está discutindo. Isso é o que faz com que o autor moderno perca um pouco mais da sua "autor-idade" sobre o texto. Mas a morte do autor deve ser vista como um fenômeno, não como um conceito de valor. Poe fazia questão de ser o "dono da chave do enredo" e produziu obras primas da literatura. A meu ver, e aí dou minha opinião pessoal, achar que "o novo" é "o bom" é um julgamento maniqueísta, ingênuo e ultrapassado que fez não entender conceitos como os de Banjamim e de Bakhtin, como esse de Barthes. Obrigada a todos pelos comentários. Bom demais ver gente louca que liga para essas coisas miúdas. beijos

João Paulo Parisio disse...

Não se pode trocar o oceano em miúdos.

Ziyad Hadi disse...

Excelente post. Filosófico.
E para dar continuidade a Mallarmé, lembremos do que Deleuze dizia: que o escritor deve ser sempre impessoal, ou seja, falar em nome de uma coletividade que o atravessa e não mais em nome de si. "O meu sonho é ser não invisível, mas imperceptível" Deleuze

Nina Maniçoba disse...

Nossa, Ziyad, adoro essa frase. Amei! Obrigada.

E, João Paulo, frase bonita também. Impossível trocar em miúdos um texto literário e até mesmo esse ensaio do Barthes. Mas é isso que faz quem ama o conhecimento: esmiuça, desvela.

Me sinto uma pecadora quando destrincho um texto desse, mas sinto também muito prazer, acho que é o que tem que ser feito.

De que vale pensar por conta própria se você não assume o risco? Não acha? Eu adoro essa adrenalina do salto intelectual (é bem menos arriscado que saltar da ponte... ou não... mas é uma delícia kkkk)

bjs