José de Alencar, sobre a literatura:

"Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado".
Benção Paterna, 1872 - tem coisas que não mudam.




terça-feira, 15 de novembro de 2011

FILHO DE OGUM - Esse conto será parte do meu livro "O Boi sem asas".

Um conto em homenagem a Túlio Carella
Filho de Ogum. de Nina Ferraz – São Paulo, maio 2011
Ele era filho de Ogum, orixá dos metais. Senhor de instrumentos e armas para agricultura, caça e guerra. Quem planta poda. Quem procura caça. Olho no olho, dente por dente. Ele era espada forjada no malho, de dois gumes, amolada. Mas sabia que passar ferro no ferro é desafiar Ogum. E que só podia acabar como acabou.
Homem bonito. Tinha um olhar fervendo destes que lambuzam qualquer pessoa. Andava no pescoço um patuá que ganhou ainda criança. O pai amarrou uma figa junto, bem rente na goela do menino. No que ia crescendo, a mãe aumentava o cordão. Mandinga forte.
Menino de ouro, não se metia em confusão, era obediente, concentrado. Mas lá pela idade de 10, virou outra pessoa. Parou de se dar bem com meninos e meninas. Calou-se. Ficava sozinho, cara fechada, testa perdida, os pensamentos vazando no vento, sem ninguém poder recolher. A mãe se preocupava todo dia que amanhecia. Vai brincar, menino! E se a noite era de silêncio, ela tentava calar o peito. Mãe é mãe. Foge. Mas sente. E reza. Rezava baixinho: ô meu Deus!
E ele foi crescendo. Encarava com um olho que não fita, fugido, disfarçado, mas tinha o corpo fechado, bem talhado, fruta de morder. Um dia, ele se pegou olhando para os homens do cais. Tinha vontades. E rondava. Rondava. Rondava. Feito fera enjaulada. Mais parecia um leão, atirado na cova de Davi. Mas não tinha mais fé que a providência divina o alimentasse.
Ele era um homem e queria um homem. Coisa escrita, destino. Cumpriu sua sina numa noite de lua cheia e maré alta.
A lua no céu nítida que nem desenho de criança. As águas do mar espumando. O vento soprando. As ondas vinham correndo para os seus pés. Benzedeiras. E limpavam o que houvesse. E agitavam a areia. E deixavam a terra alva e pura. Ele viu um caminho de luz clara na pele do outro. No riso daquele desconhecido íntimo. Naquele olho que brilhou no seu, cúmplice. E o rapaz achou o grito da calada da noite. E descobriu sua morada.
Mas amor assim é condenado ao fogo que deve queimar calado. Tem que lutar desigual, de capa e espada contra dragão. Profecia que não vem dos deuses, mas das gentes. O vaticínio: será eternamente e repetidamente feito brasa de embaúba que não tem. Que queima ligeiro. Madeira que é mole, enverga, não dá lança. Nem viga. Árvore que tem copa rala, que não dá sombra. Assim o sujeito vai. Ardendo no sol quente, de sol a sol.
E assim assim, feito num conto de bruxas, foi morrendo a paz e a calmaria. E o silêncio foi virando grito. Berros daquele homem que tinha voz agora e falava nele. Brado que ele não queria ouvir.
Acuou-se num canto resignado. Mas o homem alvo brilhava em pé, na lua. E esbravejava o que ele nunca quis saber. Cresceu nele aquelas certezas que a gente tem, mas sabe que não é. Dessas certezas turvas que cospem fogo e comem raiva. E a fúria gritou: Sou filho de Ogum! Deus negro da guerra. Também sou filho de São Jorge! Sou filho de Orixá de punhal e lança. Forja suas armas, Ogum! Agora é guerra.
Foi desse jeito que acabou um amor que ninguém viu e que ninguém pode dizer.
O sangue escuro do homem branco escorreu na terra alva e a maré baixa não lavou nada.

9 comentários:

Fabrício Franco disse...

Nina,

Seu conto tem a velocidade daqueles de Marlowe, ainda que intensamente enfronhado no nosso universo afro-baiano. Muito bom.

Respondendo às suas perguntas lá no Logomaquia, conheço uma Naedja aqui, mas não tenho muita certeza se falamos da mesma pessoa. E já tive alunos com seu sobrenome. Seriam parentes seus, provavelmente... rs rs

Abraço!!

Nina Maniçoba Ferraz disse...

COMENTÁRIO DE RAÍ BATISTA, via Facebook:

Oi Nina, tudo bem?
Acabo de ler seu conto Filho de Ogum, e fiquei maravilhado. Pouco tempo atrás, no meio de uma conversa sobre identidade e gênero descobri o livro de Carella. Fiquei curioso e busquei trechos de Orgia pela net e fiquei impressionado com as narrações das aventuras e descobrimento de Um Recife e do corpo do outro, em meio a sujeira e "king kong" heheheh...
Amei sua abordagem sincera do "proibido", do "sujo", dos desejos latentes e geralmente reprimidos. Isso sem falar do conhecimento da religião de matriz Africana.
Arrasou muito!
Sempre de olho em suas palavras!
Beijo. Juninho.

Nina Maniçoba Ferraz disse...

COMENTÁRIO DE TACIO FERRAZ, via Facebook:

Muito bom, Nina.

Você captou a inquietação e o olhar admirado que Tulio Carella tinha diante do, digamos, mundo exótico que o Recife apresentou a ele.

Parabéns.

Bj, Tácio

Su Palanti disse...

Oi Nina!

Poucas vezes li contos tão velozes, tão fluídicos e cadenciados. Adorei. Sou filha de um soteropolitano e esta cultura me faz um bem enorme... Remonta à minha parte bruxa... rs
Bjusss

Chico Ramos disse...

Bonito texto, Nina! Sensível, delicado e apaixonante.

Anônimo disse...

Acabei de ler o conto e me apaixonei. É raro ver contos tão pequenos e sutis que dizem tanta coisa. É um lindo exemplo da literatura contemporânea brasileira, que por sinal, a exemplo de todas as artes nacionais, é ignorada por seu próprio povo. Pessoalmente, no entanto, discordo que a fluidez do texto seja um atrativo - não gosto muito de frases curtas.

Nina Maniçoba Ferraz disse...

Ah, Anônimo, que curiosidade de saber seu nome... Não que isso me ajude a saber quem você é, mas o nome tem esse poder louco de materializar e dar intimidade... Seja como for: obrigada.

Meu Deus, escrever é uma alegria que eu tenho muito pouco, sou mero objeto que espera a inspiração como quem espera um amor ausente: nunca sei se vem. Não tem jeito, por mais desejo, disciplina e esforço que eu tenha, escrever é para mim impossível sem uma magia que não sei de onde vem.

Entendo que o corte das frases é ruim, deixa truncado, sem poder desenvolver, mas eu queria passar na linguagem esse desconforto de ser curto e interrompido como o amor que eu narro.

Não existe certo e errado na escrita: existe o que tem que ser, o que não pode ser e o que pode. Eu acho isso agora. E eu tento escrever como tem que ser, e eu acho que chego a isso quando não consigo mudar mais nenhuma palavra sem que algo irremediável se perca dentro de mim. Por isso que eu amo essa sensação de que o texto acabou, pelo menos para mim.

Sei lá.
Valeu
beijos

Nina Maniçoba Ferraz disse...

Obrigada Fabrício, Su, Chico... todos vocês. Foi legal reler esses comentários agora. bjs

Carlos disse...

Olá, Nina
Escrevo para agradecer a indicação do seu conto durante nossa rápida conversa no Centro Cultural Maria Antônia na noite da última terça.
Impressionou-me a maneira como sua narrativa conseguiu caracterizar em poucas linhas, numa progressão envolvente, o trágico conflito entre a pulsão sexual do protagonista e o arquétipo viril destinado a um filho de Ogum. Tudo traduzido numa linguagem literária que bem reproduz a atmosfera mágica do candomblé e dos elementos da natureza.
Além do prazer da leitura, a dedicatória do conto ainda me apresentou Túlio Carella, escritor que eu desconhecia.
Nina, deixo a você meus parabéns pelo conto.
Agora vou conhecer melhor o seu blog.
Você ganhou um novo leitor.
Beijo
Carlos