José de Alencar, sobre a literatura:

"Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado".
Benção Paterna, 1872 - tem coisas que não mudam.




terça-feira, 4 de outubro de 2011

O stress básico de cada dia - Crônica escrita para a Revista Amauri, será publicada na próxima edição, Coluna Saúde e Bem Estar.


por Nina Ferraz

“Saúde e paz, o resto a gente corre atrás”, diz a máxima. O problema é esse resto. É como se fosse uma lista de itens com os quais vão julgar se somos felizes ou não. Mas como pode existir um “enxoval básico” para a felicidade se somos todos tão diferentes? E esse conceito de sucesso nem é fixo, muda de sociedade para sociedade e também no tempo. Mas a pessoa nem se dá conta disso e começa a correr atrás do queijo. Sem se perguntar qual é a direção certa.

Um sinal de que o caminho é outro é o stress. Como quase tudo no psiquismo humano, a sensação de bem-estar depende mais do subjetivo que de questões objetivas. Em outras palavras, independe do problema em si, o que vale é a avaliação de cada um diante da incerteza. Por exemplo, se, na iminência de uma tragédia, o sujeito avalia seus recursos e se considera capaz de contornar ou resolver, tudo fica bem. Ao contrário, se a pessoa deve enfrentar um desafio mínimo, mas se sente incapaz de superá-lo, passa a se sentir angustiado. E como não ficar estressado com uma lista de tarefas diárias simplesmente surreal?

O sufoco começa pelo tempo, que passa a ser artigo de luxo. Tem que fazer atividade física regular. Tem que dar atenção `a família. Aos amigos. E principalmente aos filhos. Tem que ter um hobbie. Tem que estar por dentro das novidades. E sobretudo tem que ter uma carreira bem-sucedida. É preciso também dormir bem, mas sem deixar de ser produtivo e ter uma vida social interessante. Não se pode esquecer de comer saudável, mas sem parar de comemorar, beber socialmente e se divertir bastante. Esta é a receita, ensinam. A base perfeita para a vida equilibrada do homem moderno.

Ou será a chave da vida desequilibrada? E isso nem é tudo ainda. A pobre criatura moderna tem que estar preocupada com estética, mas não pode parecer fútil, nem exagerar; mas relaxar também não é a solução, pois o cristão vai logo se sentir desleixado e péssimo. Na esfera sexual é importante ser ativo e interessante, mas cuidado para não parecer carente, dependente ou vulgar. Profissionalmente, é importante parecer experiente e jovem (!?). Parece tudo incompatível, mas é assim mesmo. Aliás, todos devem parecer jovens, mesmo quem não é mais. E, acima de tudo, é preciso parecer bem-sucedido. Mas para isso é imprescindível ter um índice de massa corpórea que beira a desnutrição quando você é adolescente e um índice de adolescente para o resto da sua existência. O básico está muito complicado.

Mas não devemos perder as esperanças: é possível fugir desse labirinto de ratos. Talvez a meta seja ter menos metas. Fazer uma lista verdadeiramente sua de prioridades. Evitar cobranças em excesso. Fugir de metas abertas demais. Dividir seu tempo com as pessoas. Saber que não se pode ter tudo. Apreciar cada passo. Um bom caminho é não se apegar a valores irreais e passageiros, que desenham no horizonte metas simplesmente impossíveis de atingir ou manter.

Saber o que se quer é muito importante, mas saber o que não se quer é mais importante ainda. Conhecer a si mesmo e procurar se agradar. Soltando das mãos as rédias curtas das exigências dos outros, focando nossa busca em nossas próprias vontades e necessidades, talvez assim possamos enfim voltar todo o nosso esforço para o verdadeiramente essencial: saúde e paz.

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