José de Alencar, sobre a literatura:

"Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado".
Benção Paterna, 1872 - tem coisas que não mudam.




sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A ÚLTIMA BATIDA NO PREGO - Uma mulher foge no dia do casamento. O que vai acontecer? Mais um conto do meu próximo livro.


A última batida No prego
"Nem com boca férrea, bocas cem, línguas cem, pudera eu numerar da culpa
as formas, a variedade e os nomes dos castigos".

Virgílio, em Eneida, Itália

Ela estava lá. Como combinamos. De vestido de noiva. No meio da rua. Na chuva. Em pé.
Do seu lado direito, duas malas pequenas que eu haveria de carregar. Para sempre. À sua esquerda, uma poça de lama, que manchava a barra branca de seu vestido branco, de cetim branco e rendas brancas. Tudo manchado.
Parecia um passarinho pousado num fio de alta tensão. Eu me senti como um menino de bodoque na mão. Uma pedra só. Certeira.
Eu não me levantei. Eu não acenei. Eu estava lá. Mas não acenei. Era como se eu não existisse. O que dá no mesmo.
Era melhor para ela, ficar. Eu só ia porque precisava. Mas não tinha emprego. Nem conhecia ninguém no Recife. Na verdade, nem conhecia a cidade. O pouco dinheiro no meu bolso nem fazia volume. Não daria para nós dois. Ela sofreria demais. Pobre e fraca criatura. Ficaria em mim feito um prego. Furando. Dependente. Reclamando. Insatisfeita. Incompleta. E eu crucificado. A vida ia ser um inferno de todo jeito. Melhor assim.
****
 Quando ela me deixou no altar e largou o braço do pai e correu pela nave da igreja e se jogou na luz da rua e mergulhou na chuva que açoitava a calçada, eu não entendi nada.
Eu a vi desaparecer num clarão e talvez, finalmente, entendi. Uma dor aguda transpassou meu olho várias vezes, como mil tiros de uma pistola de pregos.
Tive vontade de correr atrás dela, lhe segurar pelos cabelos e trazê-la a pulso, arrastada, aos gritos, de volta para o altar. De volta para mim. Fazê-la dizer sim.
Mas no outro minuto entendi que tudo estava acabado e que, portanto, tudo era inútil ou  impossível. Inventei sacar a pistola de pregos e imaginei metralhar a sua pele inteira. Sua pele com cheiro de chuva. Bem ali, diante de todos os convidados, diante da imagem da Virgem Maria, e diante dos meus olhos cegos. Vislumbrei seu corpo todo a tremer, convulsionando, e seu vestido branco a ensopar de sangue, avermelhando.
Fervi minhas carnes na gana de fazer mil filhos em seu corpo até deformá-la e esquecê-la. E não mais reconhecê-la quando a encontrasse na rua, num domingo qualquer.
Mas fiquei parado no altar, parafusado no chão, apoiado no braço da minha mãe.


****
Eu estava lá. Na rua, parada, com os meus pés e a barra do meu vestido de noiva atolados numa poça de lama. As malas ao meu lado, sob o guarda chuva preto, inútil. Tudo inútil. Pingos grossos me açoitando. Um dilúvio, e eu a pé. A chuva pesada revolvendo a terra vermelha ao meu redor como um inferno de água.
Ele não estava lá. Ou não se fez ver. O que dá no mesmo.
Ele não acenou, como combinamos. A porta do ônibus da Viação Progresso não se abriu, como eu queria. Nem o sorriso dele se abriu. Nem seus braços.
E eu continuei parada, na rua, na chuva, na beira da poça de lama que crescia, como se fosse me engolir e me arrastar. E os meus sapatos brancos apertados, altos, encharcados, não me incomodavam mais. Nada me incomodava mais. Nem o prego quase solto do sapato novo já velho de tudo. O sapateiro também deixou de dar a última batida no prego e aquele prego também me assolava, me fustigava, me esfolava a carne.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre o livro "Brevida" - As mulheres que queriam ser Juliana Amato.



Eu queria ser Juliana Amato. Ela ganhou o concurso “Só escritoras” da Editora Edith, passando pelo crivo fino de Marcelino Freire, Vanderley Mendonça, Ivana Arruda Leite e outros. E teve seu livro lançado na Balada Literária, em 2011. Ai! Benza Deus! Parece conto de fadas em que a princesa ganha um sapatinho de cristal para arrasar no baile. Enfim, cada um sabe qual é sua disneylândia.

Mas vamos ao livro. Li "Brevida" da noite para o dia. Literalmente. É um livro pequeno: 65 páginas, duas vidas e mais quatro personagens. Conta a história de Crianço / Serumano de Deus, um rapaz pobre, com 28 anos e síndrome de Down, em sua saga para realizar o sonho de ser porteiro. E de Mamãe-biscate / Solange Abrantes Souza Nagib, uma socialite adúltera que adora drenagem linfática e diz ter sonhos, mas segue na história sem projeto pessoal, o que quer que isso signifique, como cabe à sua personagem.

Essas duas criaturas têm como principal característica a lubricidade e rabiscam suas vidas entre as demais almas do livro: de um lado, a mãe de Crianço e uma assistente social, e do outro, a filha e o marido de Solange, espécie de anti-heroína-perua-protagonista. Pronto. Um pouco de crueza, um muito de sexo e um tanto de tragédia social e temos a teia que sustenta a narrativa.

Nem novela nem fábula surrealista, o livro é recheado de situações bizarras, mas o narrador não se perde e os diálogos são firmes e fiéis ao argumento. O livro faz o principal: intriga, com certeza, o leitor atento.

Todo escritor quer prender o leitor, impressionar. Pena que Juliana vai pelo caminho mais fácil, a banalização e simplificação do grotesco. E a trama até parece ter um impossível final feliz, mas a simplicidade também é uma ilusão: a ideia não é responder, é perguntar, incomodar. Mas, resumindo o babado, acho mesmo que o sapatinho cabe no pé dela.



Nina Ferraz

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A metamorfose, de Franz Kafka. Resumo simples da narrativa

A pedido dos amigos que gostaram da análise crítica que fiz do livro "A Metamorfose", resolvi publicar também o resumo que cometi (!). Não podemos esquecer que literatura é mais "como se diz" do que "o que se diz", então o resumo é a anti-literatura... Mas acho que serve muito bem para tirar a curiosidade de quem não leu e quer conhecer a história. Cito umas frases do livro, para ajudar a sentir também, além do enredo, o estilo do autor. beijos e até

Certa manhã,  ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Assim começa o livro. Gregor era um caixeiro viajante que detestava o seu trabalho, mas que a ele estava irremediavelmente preso por dívida, por mais pelo menos 5 anos.
Preso no quarto, ele pensa em voltar a dormir, esperando que o sono ou o silêncio restaurem a normalidade.  Depois racionaliza, ao “se mostrar” acabaria com as preocupações: se a família e o seu gerente se assustassem com o seu estado, eles entenderiam porque não se levantou; e se, ao contrário, não se importassem, simplesmente iria trabalhar, desculpando-se pelo atraso. Mas o gerente foge e a família, assustada e enojada, o mantém preso em seu quarto. Gregor também, como Kafka, nutre pela irmã um amor incestuoso, mas ela cada vez mais se distancia dele.
Mostrando sinais de animalização, Gregor inicialmente perde o poder de se expressar pela fala. Depois muda seu paladar, passando a gostar de comidas podres e restos. Em seguida passa a enxergar cada vez menos e a rastejar pelo quarto, chão, paredes e teto. A irmã remove toda a mobília para permitir sua movimentação livre, mas aí ele percebe que estão aos poucos transformando seu quarto humano numa toca e que isso é a prova de que não há esperança na reversibilidade de sua situação. No final, usam seu quarto como depósito de entulho e não limpam mais nada, ficando ele também “coberto de pó, fiapos, cabelos e restos de comida” e com uma maçã que o pai arremessou contra ele encravada nas costas, apodrecendo.
“Kafkianamente” o autor nos diz, num dado momento, que embora Gregor pudesse voar e andar pelo teto ele prefere se manter no chão, para não ameaçar a família. No início, ele esperava apenas aceitação e carinho. No final, enfraquecido pela fome, solidão e tédio, ele passa a sentir ódio pelos maus tratos. Mas nada fazia.
A única coisa boa que lhe aconteceu desde a metamorfose foi ouvir a irmã tocar violino. Emocionou-se tanto que chegou a duvidar de sua condição de animal.
Finalmente ele ouve a irmã dizer que a família devia livrar-se dele.  “Sua própria opinião de que deveria desaparecer era talvez ainda mais decidida que a da irmã... Permaneceu nesse estado de reflexões vazias e pacíficas... sua cabeça inclinou-se totalmente para baixo e das suas ventas brotou, fraco, o último suspiro”.
No dia seguinte, após constatado o óbito, a empregada anuncia: “A senhora não precisa se preocupar em como se livrar da coisa aí do lado. Já está tudo em ordem”. Então pai, mãe e irmã resolvem tirar o dia de folga e vão para um singelo passeio de bonde elétrico.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Uma leitura crítica de "A Metamorfose", de Franz Kafka (a personagem do livro x a biografia do autor x todo mundo)



A METAMORFOSE – uma proposta de leitura analítica por Nina Ferraz, em 667 palavras
 “A Metamorfose” é uma narrativa literária por excelência: a palavra é carne impessoal, transcende e se reveste de pele e significados. A fábula risível (um homem se transforma num inseto) atravessa os séculos e as fronteiras para ser uma obra atemporal da aldeia humana. O livro é tão verdadeiro porque Kafka sempre derrama um forte componente biográfico nos seus textos. É a comédia humana, a vida de qualquer "um qualquer", a cotidiana e esquecida, que segue de perto a história narrada, por mais absurda que ela seja. Questões universais como falta de ânimo e razão para viver, solidão, amor servil e desejo irrealizável são as sementes que Kafka vai jogando através de “A Metamorfose” dentro do juízo do leitor.
Analisando “A Metamorfose” pelo prisma das questões humanas confrontadas com a biografia do autor, as semelhanças entre Kafka e Gregor (protagonista de A Metamorfose) começam no fato simples de ambos viverem de atividades que não gostam e não apresentam perspectiva ou desafio. A fala explícita da personagem, cheia de enfado e resignação, afirma não gostar do que faz. Essa condição fria e burocrática de existir se faz presente até na escolha da linguagem: o jargão cartorial é uma característica do autor. Ele escreve: “haverei de refletir para ver se não movo uma ação estabelecendo reinvidicações que, ... acredite..., serão muito fáceis de fundamentar”...
Gregor (de sujeito) se faz objeto e afirma “sei que ninguém ama o caixeiro-viajante”. A solidão profunda e consciente é outra marca comum entre o criador e essa sua criatura. Os biógrafos dizem da solidão de Kafka. Mas, não importa quantos amigos você tenha no Facebook, a vida é uma viagem solitária. Em Gregor, essa solidão fica evidente no seu isolamento, em toda sua trajetória e na descrição detalhada da foto de uma mulher idealizada, recortada de uma revista, e pelo fato de, num dado momento, a moldura ficar colada no ventre do inseto, numa posição sexual. Kafka mostra, não diz.
Outra questão importante é o embuste do amor servil. Segundo Backes, uma situação típica em Kafka é a afirmação de que o homem avilta sua personalidade em favor da ordem superior. Sacrifica o gozo privado em favor do trabalho e da família, geralmente representada pela figura paterna. Sob certo prisma mais pessoal, não o do “Contrato Social” ou outros igualmente passíveis de arrazoamento, esse é o velho desejo de adequação, desejo de ser amado.  Kafka expressa esse desejo aberta e biograficamente em sua obra “Carta ao Pai” e o desenha em cores rutilantes em “A Metamorfose”. Através do cativeiro voluntário de Gregor, o amor servil (subserviência, dedicação e  abnegação) também é um tema do livro. O fato de Gregor não voar e não rastejar no teto (onde teria uma melhor visão e mais espaço) e seguir se arrastando penosamente pelo chão para não assustar a família e o fato de ele não atacar a despensa (mesmo morrendo de fome) são passagens que podem ilustrar esse ponto. Tem um trecho que ele fala que ficaria muito bem numa caixa, com furinhos para permitir sua respiração – querendo dizer que ele precisa menos de cuidados  ou afirmação e mais de aceitação.
Talvez esse amor servil seja o vértice que inflexiona a curva do desejo. Também como Kafka, Gregor sente um amor irrealizável pela irmã. Ela é sempre a figura mais presente junto a Gregor (e Kafka chegou a morar uns tempos com sua irmã Ottla). Inicialmente Gregor é responsável pela irmã, mas depois da metamorfose ela passa a cuidar dele. Se no início tinha atenção e cuidado, logo se estabelece uma relação de autoridade e dependência. No final, a irmã acaba dizendo querer que ele desapareça e ele morre logo em seguida, quase para lhe satisfazer a vontade.
Irrefletida vítima do desejo de adequação e de amor, o homem trai a sua própria natureza, resultando exatamente no oposto: inadequação ao trabalho, `a família e ao mundo. O isolamento, a melancolia e a incompreensão resultantes determinam um processo de animalização, isso é o que nos diz Kafka finalmente.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Não vou rastejar para o alto __ Franz Kafka

KAFKA – uma minibiografia pessoal.
Se eu fosse Kafka já teria morrido. Ele morreu de tuberculose aos 40 anos, em 1924. Filho de judeus, falava alemão e viveu numa sociedade que já nutria os vermes que iam degenerar em nazismo. Filho de Hermann - um homem empreendedor, forte de espírito e compleição física - Kafka era o oposto do pai: pequeno, indeciso e funcionário público de uma companhia de seguros. Noivou duas vezes, mas nunca se casou e sofria de amor incestuoso pela irmã mais nova, Ottla. Desses conflitos, brotou uma obra literária densa e extremamente impactante.
O primeiro livro de Kafka que li foi “Carta ao Pai”, uma obra póstuma publicada por um amigo, que na verdade era uma carta que ele realmente escreveu para o pai. O conhecimento da biografia do autor e a leitura prévia da “Carta...” foram fundamentais para entender “A Metamorfose”. Na semana que vem vou postar um resumo simples do livro em menos de 500 palavras. E na semana seguinte uma leitura analítica da obra. Pelo prazer, esforço e comprometimento que tive ao escrever, tenho certeza que vale ler; tanto para quem ama Kafka, quanto para quem quer simplesmente conhecê-lo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Inferno de Lilith

Escrevi esse poema de encomenda para recitar no Sarau da Casa das Rosas, como parte das atividades da Balada Literária de 2011. A Balada é uma grande celebração `a literatura, 4 dias de encontros e conversas maravilhosas.

A FILMAGEM está no You Tube e o atalho é AQUI

É isso.

beijos