Mormaço sem abraço
Saudade feito açoite (Nina)
A lua nova que era nova chora
E agora? (Nina)

Por Nina Ferraz
Saúde não é a ausência de doença, é sentir-se bem. Esse simples conceito pode nos dar instrumentos para enfrentar e resolver a maioria dos problemas do dia a dia. De fato, não importa como efetivamente o mundo é, importa mesmo como ele é percebido. Então a frase “Mente sã em corpo são” adquire um novo significado. O pensamento passa a ser visto como um instrumento. Mas como saber se o pensamento é a ferramenta para resolver o problema ou se ele é o problema?
Para achar a saída para as nossas dificuldades é preciso pensar, claro. Porém frequentemente, mais frequentemente do que se imagina, a solução é simplesmente parar de pensar. Relembrar fatos para conhecer a si mesmo e para considerar riscos futuros é importante para o planejamento da vida. Revisitar o passado com esse intuito é saudável. A pessoa olha para trás, coleta suas experiências e toma decisões.
No lado oposto, está o pensamento estéril. Quando o pensamento é circular, repetitivo, fica ali na cabeça incomodando sem ser percebido ou reaparece sem ser convidado, pode ter certeza: esse pensamento é negativo e deve ser evitado. Esse tipo de pensamento não é uma reflexão positiva e ordenada, geralmente age como um mantra inconsciente, que assombra a pessoa, atrapalha o sono, altera o apetite, depleta a energia e reduz a capacidade de concentração.
É biológico. O cérebro reage a tudo que lhe é dado. Por isso eleger coisas boas para pensar é fundamental. Se concentrar em boas lembranças, pelo menos uma vez ao dia, traz um bem estar imediato. Meditar também é muito bom. E meditar significa não pensar, esvaziar o cérebro, reduzir o barulho interior. É como dar repouso aos nervos.
Ao contrário, remoer experiências negativas mergulha o sujeito numa química cerebral que faz tudo no horizonte aparecer em preto e branco. Ficar lembrando uma coisa triste, não resolve o que passou e, faz o pior, aprisiona o cérebro exatamente dentro desta experiência. Cada vez que é revisitada, a simples memória faz despejar hormônios e uma química cerebral que resulta em tristeza, depressão ou pessimismo. Afinal relembrar é como reviver.
A pergunta fascinante é: o que é a verdade, então? Uma elaboração humana? Uma interpretação? Sim. Isso é o que nos faz humanos: a avaliação da circunstância é mais importante do que o fato em si. Um copo, ele pode estar meio cheio ou meio vazio. Aquela pessoa que está ali, ela ainda não foi ou decidiu ficar mais um pouco. Em ambos os casos a realidade é a mesma: a quantidade de água no copo ou o fato de a pessoa estar ali. Diante da ausência ou indelicadeza de alguém, uma pessoa nem percebe e a outra vai ter mais assunto no analista.
Em outras palavras, a verdade não existe por si só, ela é fruto da nossa análise, da análise dos outros e dos dogmas do meio em que vivemos. Assim, controlar o que pensamos é um grande começo. Elaborar e usar uma lista de “lembranças que curam” e aprender a reconhecer e evitar os pensamentos negativos pode ser a chave mais segura para o equilíbrio e para o bem estar físico e mental.

por Nina Ferraz
“Saúde e paz, o resto a gente corre atrás”, diz a máxima. O problema é esse resto. É como se fosse uma lista de itens com os quais vão julgar se somos felizes ou não. Mas como pode existir um “enxoval básico” para a felicidade se somos todos tão diferentes? E esse conceito de sucesso nem é fixo, muda de sociedade para sociedade e também no tempo. Mas a pessoa nem se dá conta disso e começa a correr atrás do queijo. Sem se perguntar qual é a direção certa.
Um sinal de que o caminho é outro é o stress. Como quase tudo no psiquismo humano, a sensação de bem-estar depende mais do subjetivo que de questões objetivas. Em outras palavras, independe do problema em si, o que vale é a avaliação de cada um diante da incerteza. Por exemplo, se, na iminência de uma tragédia, o sujeito avalia seus recursos e se considera capaz de contornar ou resolver, tudo fica bem. Ao contrário, se a pessoa deve enfrentar um desafio mínimo, mas se sente incapaz de superá-lo, passa a se sentir angustiado. E como não ficar estressado com uma lista de tarefas diárias simplesmente surreal?
O sufoco começa pelo tempo, que passa a ser artigo de luxo. Tem que fazer atividade física regular. Tem que dar atenção `a família. Aos amigos. E principalmente aos filhos. Tem que ter um hobbie. Tem que estar por dentro das novidades. E sobretudo tem que ter uma carreira bem-sucedida. É preciso também dormir bem, mas sem deixar de ser produtivo e ter uma vida social interessante. Não se pode esquecer de comer saudável, mas sem parar de comemorar, beber socialmente e se divertir bastante. Esta é a receita, ensinam. A base perfeita para a vida equilibrada do homem moderno.
Ou será a chave da vida desequilibrada? E isso nem é tudo ainda. A pobre criatura moderna tem que estar preocupada com estética, mas não pode parecer fútil, nem exagerar; mas relaxar também não é a solução, pois o cristão vai logo se sentir desleixado e péssimo. Na esfera sexual é importante ser ativo e interessante, mas cuidado para não parecer carente, dependente ou vulgar. Profissionalmente, é importante parecer experiente e jovem (!?). Parece tudo incompatível, mas é assim mesmo. Aliás, todos devem parecer jovens, mesmo quem não é mais. E, acima de tudo, é preciso parecer bem-sucedido. Mas para isso é imprescindível ter um índice de massa corpórea que beira a desnutrição quando você é adolescente e um índice de adolescente para o resto da sua existência. O básico está muito complicado.
Mas não devemos perder as esperanças: é possível fugir desse labirinto de ratos. Talvez a meta seja ter menos metas. Fazer uma lista verdadeiramente sua de prioridades. Evitar cobranças em excesso. Fugir de metas abertas demais. Dividir seu tempo com as pessoas. Saber que não se pode ter tudo. Apreciar cada passo. Um bom caminho é não se apegar a valores irreais e passageiros, que desenham no horizonte metas simplesmente impossíveis de atingir ou manter.
Saber o que se quer é muito importante, mas saber o que não se quer é mais importante ainda. Conhecer a si mesmo e procurar se agradar. Soltando das mãos as rédias curtas das exigências dos outros, focando nossa busca em nossas próprias vontades e necessidades, talvez assim possamos enfim voltar todo o nosso esforço para o verdadeiramente essencial: saúde e paz.
Por Nina Ferraz
Assisti à peça espetáculo Macumba Antropófoga na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho passado, fazendo parte das homenagens ao escritor Oswald de Andrade (1890-1954). Já estava tão impregnada da fama do diretor José Celso Martinez Corrêa que, por mais exdrúxula que pareça a comparação, me senti como um católico que finalmente assistisse a uma missa celebrada pelo Papa.
Era tarde clarinha quando atravessei os muros que delimitavam o que a partir daquele minuto ia ser um teatro. Sentada na areia, me deparei com um monte de gente pelada, circundando um palco improvisado na praia. Sobre o palco, dois atores (vestidos) eram Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, entre outros predicados, autores do Manifesto Antropofágico e do quadro Abaporu, que em tupi-guarani quer dizer “o homem que come gente”. Encarnados por Marcelo Drummond e Letícia Coura, eles dançavam e brindavam à Semana de Arte Moderna (de 1922), quando começaram a tirar a roupa. A música gutural, a dança primitiva, a nudez, tudo me levava para uma celebração numa tribo longínqua, para um ritual que deveria surpreender a cada minuto. Mas isso não era surpresa.
Depois de vivas e brindes de absinto, a festa “civilizada” paulistana descia e se diluía na tribo. E Oswald era comido. Vale ressaltar que esse termo sempre era usado em dois sentidos: o da coabitação bíblica e o da comemoração gastronômica. Depois de digerido, incorporado, parecia que ele se transformava em Mário de Andrade ou em Macunaíma, ou nos dois. Afinal, onde está a linha entre o homem e a sua obra? Estava dada a metáfora perfeita e intrincada: definição de brasilidade e antropofagia. Na formação do que eu sou (brasileiro, humano) assimilo o outro, o autóctone, o estrangeiro e o bicho. Eu me aproprio do outro porque eu admiro sua força e coragem e quero assimilá-las ou simplesmente porque preciso dele para construir quem eu sou. O outro é o que eu não sou e também é o que eu sou, pois só na alteridade eu me defino. Ou nas palavras de Zé Celso: “Oswald é nosso grande descolonizador”.
Zé Celso diz que o que se explica não é arte. E assim a confusão reinou, deixando o público boquiaberto durante todo o espetáculo, que deve ter durado mais de três horas (eu perdi as contas). Sobreveio, como num dilúvio, uma sucessão de imagens fragmentárias e de cerimoniais de expiação e louvores. Apareceram em cena Maria Antonieta, D Pedro I, Napoleão, Freud, Rousseau, Montaigne e Buñuel… enfim tudo o que você imaginar que se moveu no mundo, entre Deus e o Dr. Nicolelis(Miguel Nicolelis, médico, cientista e escritor), que também aparecem na história. Mas não ficamos todos só de boca aberta. Algumas pessoas da plateia foram engolfadas pelo tsunami Zé Celso e acabaram nuas, dançando, incorporadas nos intestinos de uma festa para todos os sentidos. Perto do final, os atores passaram gloss na boca e distribuíram beijos na plateia. Uma atriz me beijou e eu me deixei beijar. Rápido, só lábios. Uma pequena transgressão para nutrir meu espírito selvagem assumidamente domesticado.
Se você vai no Teatro Oficina ver Macumba Antropófaga, não dá para dizer o que lhe aguarda, só sei que saí desta peça com um gostinho de espanto e de morango na boca.


Imagine!
Eu estava lendo o Estadão de domindo (4/9/11) e pensei: Imagine os sumérios tendo que parar de desenhar sua impecável caligrafia nos tablets (de argila, claro!). E os escribas egípcios, tendo que largar mão de escrever no papiro?
Certeza.