José de Alencar, sobre a literatura:

"Palavra que inventa a multidão, inovação que adota o uso, caprichos que surgem no espírito do idiota inspirado".
Benção Paterna, 1872 - tem coisas que não mudam.




sábado, 12 de novembro de 2011

Poemínimos

Esses dois poeminhas ganharam 1o e 2o lugar -Melhores Haicais dentre os mais de 20 ótimos concorrentes da Oficina de Haicai do B-Eco de 17/10/2011 - e os dois são meus! Adorei! Os colegas que estavam na oficina que votaram. Obrigada a todos.

Calor da noite
Mormaço sem abraço
Saudade feito açoite (Nina)


A lua nova que era nova chora
No pescoço da noite
E agora? (Nina)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Pensar faz mal - Crônica escrita para a Revista Amauri.


Por Nina Ferraz

Saúde não é a ausência de doença, é sentir-se bem. Esse simples conceito pode nos dar instrumentos para enfrentar e resolver a maioria dos problemas do dia a dia. De fato, não importa como efetivamente o mundo é, importa mesmo como ele é percebido. Então a frase “Mente sã em corpo são” adquire um novo significado. O pensamento passa a ser visto como um instrumento. Mas como saber se o pensamento é a ferramenta para resolver o problema ou se ele é o problema?

Para achar a saída para as nossas dificuldades é preciso pensar, claro. Porém frequentemente, mais frequentemente do que se imagina, a solução é simplesmente parar de pensar. Relembrar fatos para conhecer a si mesmo e para considerar riscos futuros é importante para o planejamento da vida. Revisitar o passado com esse intuito é saudável. A pessoa olha para trás, coleta suas experiências e toma decisões.

No lado oposto, está o pensamento estéril. Quando o pensamento é circular, repetitivo, fica ali na cabeça incomodando sem ser percebido ou reaparece sem ser convidado, pode ter certeza: esse pensamento é negativo e deve ser evitado. Esse tipo de pensamento não é uma reflexão positiva e ordenada, geralmente age como um mantra inconsciente, que assombra a pessoa, atrapalha o sono, altera o apetite, depleta a energia e reduz a capacidade de concentração.

É biológico. O cérebro reage a tudo que lhe é dado. Por isso eleger coisas boas para pensar é fundamental. Se concentrar em boas lembranças, pelo menos uma vez ao dia, traz um bem estar imediato. Meditar também é muito bom. E meditar significa não pensar, esvaziar o cérebro, reduzir o barulho interior. É como dar repouso aos nervos.

Ao contrário, remoer experiências negativas mergulha o sujeito numa química cerebral que faz tudo no horizonte aparecer em preto e branco. Ficar lembrando uma coisa triste, não resolve o que passou e, faz o pior, aprisiona o cérebro exatamente dentro desta experiência. Cada vez que é revisitada, a simples memória faz despejar hormônios e uma química cerebral que resulta em tristeza, depressão ou pessimismo. Afinal relembrar é como reviver.

A pergunta fascinante é: o que é a verdade, então? Uma elaboração humana? Uma interpretação? Sim. Isso é o que nos faz humanos: a avaliação da circunstância é mais importante do que o fato em si. Um copo, ele pode estar meio cheio ou meio vazio. Aquela pessoa que está ali, ela ainda não foi ou decidiu ficar mais um pouco. Em ambos os casos a realidade é a mesma: a quantidade de água no copo ou o fato de a pessoa estar ali. Diante da ausência ou indelicadeza de alguém, uma pessoa nem percebe e a outra vai ter mais assunto no analista.

Em outras palavras, a verdade não existe por si só, ela é fruto da nossa análise, da análise dos outros e dos dogmas do meio em que vivemos. Assim, controlar o que pensamos é um grande começo. Elaborar e usar uma lista de “lembranças que curam” e aprender a reconhecer e evitar os pensamentos negativos pode ser a chave mais segura para o equilíbrio e para o bem estar físico e mental.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O stress básico de cada dia - Crônica escrita para a Revista Amauri, será publicada na próxima edição, Coluna Saúde e Bem Estar.


por Nina Ferraz

“Saúde e paz, o resto a gente corre atrás”, diz a máxima. O problema é esse resto. É como se fosse uma lista de itens com os quais vão julgar se somos felizes ou não. Mas como pode existir um “enxoval básico” para a felicidade se somos todos tão diferentes? E esse conceito de sucesso nem é fixo, muda de sociedade para sociedade e também no tempo. Mas a pessoa nem se dá conta disso e começa a correr atrás do queijo. Sem se perguntar qual é a direção certa.

Um sinal de que o caminho é outro é o stress. Como quase tudo no psiquismo humano, a sensação de bem-estar depende mais do subjetivo que de questões objetivas. Em outras palavras, independe do problema em si, o que vale é a avaliação de cada um diante da incerteza. Por exemplo, se, na iminência de uma tragédia, o sujeito avalia seus recursos e se considera capaz de contornar ou resolver, tudo fica bem. Ao contrário, se a pessoa deve enfrentar um desafio mínimo, mas se sente incapaz de superá-lo, passa a se sentir angustiado. E como não ficar estressado com uma lista de tarefas diárias simplesmente surreal?

O sufoco começa pelo tempo, que passa a ser artigo de luxo. Tem que fazer atividade física regular. Tem que dar atenção `a família. Aos amigos. E principalmente aos filhos. Tem que ter um hobbie. Tem que estar por dentro das novidades. E sobretudo tem que ter uma carreira bem-sucedida. É preciso também dormir bem, mas sem deixar de ser produtivo e ter uma vida social interessante. Não se pode esquecer de comer saudável, mas sem parar de comemorar, beber socialmente e se divertir bastante. Esta é a receita, ensinam. A base perfeita para a vida equilibrada do homem moderno.

Ou será a chave da vida desequilibrada? E isso nem é tudo ainda. A pobre criatura moderna tem que estar preocupada com estética, mas não pode parecer fútil, nem exagerar; mas relaxar também não é a solução, pois o cristão vai logo se sentir desleixado e péssimo. Na esfera sexual é importante ser ativo e interessante, mas cuidado para não parecer carente, dependente ou vulgar. Profissionalmente, é importante parecer experiente e jovem (!?). Parece tudo incompatível, mas é assim mesmo. Aliás, todos devem parecer jovens, mesmo quem não é mais. E, acima de tudo, é preciso parecer bem-sucedido. Mas para isso é imprescindível ter um índice de massa corpórea que beira a desnutrição quando você é adolescente e um índice de adolescente para o resto da sua existência. O básico está muito complicado.

Mas não devemos perder as esperanças: é possível fugir desse labirinto de ratos. Talvez a meta seja ter menos metas. Fazer uma lista verdadeiramente sua de prioridades. Evitar cobranças em excesso. Fugir de metas abertas demais. Dividir seu tempo com as pessoas. Saber que não se pode ter tudo. Apreciar cada passo. Um bom caminho é não se apegar a valores irreais e passageiros, que desenham no horizonte metas simplesmente impossíveis de atingir ou manter.

Saber o que se quer é muito importante, mas saber o que não se quer é mais importante ainda. Conhecer a si mesmo e procurar se agradar. Soltando das mãos as rédias curtas das exigências dos outros, focando nossa busca em nossas próprias vontades e necessidades, talvez assim possamos enfim voltar todo o nosso esforço para o verdadeiramente essencial: saúde e paz.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Macumba Antropófaga, sobre a peça, para o Garapa Paulista

Fragmentária, Híbrida, Sincrética e Metafórica

Por Nina Ferraz

Assisti à peça espetáculo Macumba Antropófoga na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em julho passado, fazendo parte das homenagens ao escritor Oswald de Andrade (1890-1954). Já estava tão impregnada da fama do diretor José Celso Martinez Corrêa que, por mais exdrúxula que pareça a comparação, me senti como um católico que finalmente assistisse a uma missa celebrada pelo Papa.

Era tarde clarinha quando atravessei os muros que delimitavam o que a partir daquele minuto ia ser um teatro. Sentada na areia, me deparei com um monte de gente pelada, circundando um palco improvisado na praia. Sobre o palco, dois atores (vestidos) eram Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, entre outros predicados, autores do Manifesto Antropofágico e do quadro Abaporu, que em tupi-guarani quer dizer “o homem que come gente”. Encarnados por Marcelo Drummond e Letícia Coura, eles dançavam e brindavam à Semana de Arte Moderna (de 1922), quando começaram a tirar a roupa. A música gutural, a dança primitiva, a nudez, tudo me levava para uma celebração numa tribo longínqua, para um ritual que deveria surpreender a cada minuto. Mas isso não era surpresa.

Depois de vivas e brindes de absinto, a festa “civilizada” paulistana descia e se diluía na tribo. E Oswald era comido. Vale ressaltar que esse termo sempre era usado em dois sentidos: o da coabitação bíblica e o da comemoração gastronômica. Depois de digerido, incorporado, parecia que ele se transformava em Mário de Andrade ou em Macunaíma, ou nos dois. Afinal, onde está a linha entre o homem e a sua obra? Estava dada a metáfora perfeita e intrincada: definição de brasilidade e antropofagia. Na formação do que eu sou (brasileiro, humano) assimilo o outro, o autóctone, o estrangeiro e o bicho. Eu me aproprio do outro porque eu admiro sua força e coragem e quero assimilá-las ou simplesmente porque preciso dele para construir quem eu sou. O outro é o que eu não sou e também é o que eu sou, pois só na alteridade eu me defino. Ou nas palavras de Zé Celso: “Oswald é nosso grande descolonizador”.

Zé Celso diz que o que se explica não é arte. E assim a confusão reinou, deixando o público boquiaberto durante todo o espetáculo, que deve ter durado mais de três horas (eu perdi as contas). Sobreveio, como num dilúvio, uma sucessão de imagens fragmentárias e de cerimoniais de expiação e louvores. Apareceram em cena Maria Antonieta, D Pedro I, Napoleão, Freud, Rousseau, Montaigne e Buñuel… enfim tudo o que você imaginar que se moveu no mundo, entre Deus e o Dr. Nicolelis(Miguel Nicolelis, médico, cientista e escritor), que também aparecem na história. Mas não ficamos todos só de boca aberta. Algumas pessoas da plateia foram engolfadas pelo tsunami Zé Celso e acabaram nuas, dançando, incorporadas nos intestinos de uma festa para todos os sentidos. Perto do final, os atores passaram gloss na boca e distribuíram beijos na plateia. Uma atriz me beijou e eu me deixei beijar. Rápido, só lábios. Uma pequena transgressão para nutrir meu espírito selvagem assumidamente domesticado.

Se você vai no Teatro Oficina ver Macumba Antropófaga, não dá para dizer o que lhe aguarda, só sei que saí desta peça com um gostinho de espanto e de morango na boca.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Poema de João Cabral de Melo Neto, em "O cão sem plumas", Editora Alfaguara

Meus olhos têm telescópios
espiando a rua,
espiando minha alma
longe de mim mil metros.

Mulheres vão e vem nadando
em rios invisíveis.
Automóveis como peixes cegos
compõem minhas visões mecânicas.

Há vinte anos não digo a palavra
que sempre espero de mim.
Ficarei indefinidamente contemplando
meu retrato eu morto.

sábado, 10 de setembro de 2011

Imagine! 2 - continuação da crônica sobre a história do livro


Imagine!

Imagine quando a fotografia surgiu e o mundo ficou aterrorizado com medo da pintura se acabar. Imagine que o cinema já foi considerado o fim do teatro. E a TV seria o fim do cinema.
Nada disso aconteceu, obviamente,
mas essas expressões da arte são linguagens diferentes e não apenas veículos. Um exemplo claro de veículo é o vídeo: as fitas imensas foram substituídas por fitinhas minúsculas e depois pelo DVD, e hoje já se baixa um filme direto da TV ou da internet sem nenhum veículo palpável.

O livro é um veículo. Vai se acabar.

A literatura quando surgiu era de transmissão oral. Os aedos e rapsodos gregos invocavam as musas e recitavam tudo de memória. Sem necessidade de veículo algum. Nos menestréis, trovadores medievais, violeiros e contadores de história - a poesia e a música se misturam. Antigamente mesmo as narrativas eram rimadas, para se "cantar" louvores aos heróis. Para mim, poesia é para ser dividida, para ser lida em voz alta, cantada.

A fala é o principal instrumento. Literatura é ideia e emoção, arte para interagir na praça. Mesmo depois de surgir o livro (o objeto), muitas pessoas mantinham o hábito de fazer leituras em grupo, de lerem uns para os outros. De recitar. E acho que esse interesse está voltando. Que a literatura vai deixar de ser somente um deleite solitário, para ser também um prazer comunitário. E já é. Na cidade de São Paulo (dita a mais fria e objetiva do país) os saraus e os grupos de leituras se multiplicam como insetos num mundo subterrâneo. E as placas tectônicas estão sempre em movimento.

E assim, no mundo flutuante das ideias, muita coisa muda e outras são imutáveis. Hoje a gente vive o tempo do "vale o escrito" (ou nem isso), mas nem sempre foi assim. Embora a escrita já tivesse sido inventada, o filósofo grego Sócrates não deixou nada escrito de sua autoria. Até Platão via a escrita com desconfiança, ele só acreditava no diálogo como instrumento para criar e transmitir informação. Então o novo incomoda atá as mentes mais brilhantes.

O lance é que algo novo hoje aparece a cada segundo. E essa mobilidade da realidade pode ser assustadora. Estamos diante de séculos de conhecimento e arte, de medos eternos e certezas passageiras e de muita tecnologia nova. Mas o veículo não importa. Como Platão e Sócrates, para participar do mundo das ideias, só temos mesmo nossas vozes e o diálogo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Imagine!



Imagine!

Eu estava lendo o Estadão de domindo (4/9/11) e pensei: Imagine os sumérios tendo que parar de desenhar sua impecável caligrafia nos tablets (de argila, claro!). E os escribas egípcios, tendo que largar mão de escrever no papiro?

Segundo o jornal, uma pesquisa realizada no Colégio Humboldt com 241 estudantes e mais alunos do Dante e de outras escolas concluiu que quase todos os adolescentes têm tablets (não de argila, claro!) e lêem e-books, mas ainda preferem livros de papel. Júlia, de 15 anos, completa: “tenho prazer em ver a prateleira cheia de livros”.

Entendo, Júlia, me identifico totalmente. Mas acho que somos a excessão. Hoje e no futuro esse desejo de “estante” se tornará completamente extinto, tão difícil de entender quanto o desejo de Cleópatra que era guardar “O Livro dos Mortos” em rolos de papiro, imagino.

Sou escritora. Gosto de pensar que produzo literatura e não livros, assim como um músico produz música e não CDs ou discos de vinil.

Mas a evolução/revolução na tecnologia do lápis e papel já começou e é inevitável. Ou continua. Johannes Gutenberg, por volta de 1439, inventou a prensa móvel (um protótipo da tecnologia moderna de impressão de livros). Imagine o escarcéu que causou entre os monges que passavam as suas vidas enclausurados nos mosteiros copiando livros! Eles imprimiam com sua letra rebuscada uma personalidade única aos escritos. Isso sim cai bem no conceito de fim do livro objeto.

Mas o passado deve ser conhecido para trazer luz ao presente e para diminuir o nosso saudosismo e sensação de iminência do apocalipse: o fim do livro, o fim dos leitores “de qualidade” e todas sorte de aberrações medievais que circulam na modernidade.

A verdade é simples e crua: a tecnologia vai resolver a questão da deterioração do livro eletrônico, da documentalização, da acomodação do aparelho visual `a tela durante a leitura... Tudo.

Certeza.

Nós, uma das últimas “gerações de papel” morreremos e as pessoas vão esquecer os livros como esqueceram os compact disks, as fitas K7, as tábuas de argila e os papiros. Inexorável.